Quando era miúdo fui a Londres com o meu pai e com a minha irmã mais nova, que hoje é a do meio. Nesses dias tive a oportunidade de conhecer alguns dos lugares mais emblemáticos da cidade, entre os quais o chamado "speaker's corner" no Hyde Park. Lembro-me de dois ou três cavalheiros em cima de bancos de cozinha, discursando num inglês que era então para mim indecifrável, e em torno deles pequenas multidões que se iam manifestando com palmas ou apupos. Achei tudo aquilo notável, e só anos mais tarde me apercebi da ratoeira psicológica que o "speaker's corner" comporta. Uma ratoeira semelhante àquela inerente à falsa percepção da existência de um auditório associada ao mundo da comunicação e da partilha de informação, ideias e outros conteúdos digitais...

A minha relação de amor-ódio com o facebook tem várias raízes e esta é precisamente uma delas: a partilha de conteúdos dá-nos a falsa percepção de chegarmos a muita gente ao mesmo tempo, gera em nós um sentimento de comunicação efectiva com outros quando a verdade não poderia ser, na generalidade dos casos, mais longínqua.
Na rede social somos não raras vezes um "speaker" que fala e por vezes grita para uma sala cheia de gente entretida ou ocupada com outros assuntos. A disponibilidade alheia é tanto menor quanto mais sério for o assunto que procuramos tratar. E na verdade raros são aqueles que, passados os olhos pelo título, a imagem ou a "boca para a geral" partilhada, se dão ao trabalho de abrir o link associado.
O tempo é de consumo acelerado de informação, já o sabemos. Mais do que três parágrafos é um testamento, mais do que minuto e meio de vídeo é longa-metragem, mais do que quatro minutos de canção é "prog". E perante este cenário resta-nos a persistência para furar a barreira de distracção ou o poder de exercer o direito de permanecer calados. Isto, claro está, quando a lógica de utilização da rede social não se restringe à partilha de conteúdos desprovidos de uma intenção mais profunda do que uma reacção momentânea. "Gosto".
Ando portanto nesta coisa de me apaixonar e desapaixonar pela rede social dia-sim-dia-sim, dando por vezes maior atenção às suas vantagens associadas e noutras circunstâncias ao elefante no centro da sala.
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3 comentários:
Concordando com as posições e razões que apontas, questiono, mas isto das redes sociais é para levar a sério? Por vezes sim, há informação que só passa aqui, mobilizações que nascem num post, denuncias que rasgam a morrinha de uma comunicação social que já não o é há muito.
Mas esses rasgos são fogachos numa noite escura, de raivas, medos e muita ignorância. Não mais nem menos que no café ou no transporte público. Mas mais acirradas por uma alegada liberdade abstrata que surge de um pseudo-anonimato digital, do conforto de quem no sofá se indigna com a fome em África.
Hoje a informação está na ponta dos dedos, tal como a desinformação, fica na nossa cabeça a capacidade de as distinguir e saber o que valorizar e quando. E isso acontece quase nunca, nem é suposto, creio.
:)
Desde que decidi que o facebook é um substituto de uma bolacha fiquei muito mais elegante… ;)
Não o levo a sério e apenas serve para coisas que acho piada, para divertir e fazer rir os amigos, para os cumprimentar de manhã e à noite, especialmente os que estão longe.
Como tudo é efémero não há tempo (nem espaço) para ter discussões filosóficas, políticas ou outras quaisquer. As pessoas também não querem isso e, por vezes, ficam muito susceptíveis quando as nossas opiniões não coincidem com as delas.
Por isso, lá eu ‘gosto' ou ‘adoro’ com sinceridade e faço pequenos comentários, mas não faço teses e muito menos teorias.
Ah… e quando quero informar-me sobre temas importantes e relevantes para a minha vida, bem como aprender coisas interessantes, não recorro a ele. Frequento os locais próprios. Como este, por exemplo. :)
A contradição é que o conjunto de redes sociais, e o facebook em particular, não responde com a eficácia necessária à desinformação geral promovida pela predominante comunicação social, que promove o entretenimento, superficialidade e mentiras em forma de propaganda camuflada de informação.
Nosso dever é furar. Responder indo além do entretenimento, além da superficialidade, responder com a verdade e procurá-la. Nada é tão provocador numa rede social do que dizer a verdade. E essa provocação faz um efeito, apesar de parecer tão irrisório e (também por outros motivos) muitas vezes desmotivante. Mas só assim é que fiquei a saber que os tubarões matam 7 ou 8 pessoas por ano, e o inverso é da casa das centenas de milhar.
Pessoalmente, sem facebook muitas vezes demoraria muito mais tempo a reformular a minha forma de pensar. Além disso, quando se pensa diferente da maioria, é também reconfortante saber via rede social que não se está sozinho.
O pior, é que acho que conformismo existente nos nossos dias tem uma perversa característica: a Verdade não importa, é uma minoria que a procura e se disponibiliza ao desafio de se sujeitar a ela. Por esta via, resta entretidamente barbar-nos até ao click de rato final.
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