23/03/2016

Remote control

"Remote control", álbum dos The Tubes, tem quase tantos anos quantos aqueles que eu tenho de vida. O disco saiu em Março de 1979, numa altura em que a questão da dependência tecnológica começava a ser debatida. "Remote control" deu o seu contributo para esse debate através de letras sarcásticas e corrosivas, melodias desconcertantes e uma mundivisão bem ilustrada através de uma capa provocatória na qual se pode ver uma criança muito pequena deitada num "vidi-trainer", observando o monitor com o ar hipnotizado que, quase 40 anos depois, existe nos olhos de muitos daqueles que mimam o seu smartphone como se de um semelhante se tratasse.

É bom lembrar que o disco foi apresentado e tocado em Lisboa, pelos The Tubes, eles mesmos. Diz quem assistiu que foi um grande concerto e eu acredito, invejoso de não ter presenciado os muitos e bons concertos que o Portugal libertado recebeu entre 1974 e o início dos anos 80.

A primeira faixa do álbum é bem esclarecedora acerca da natureza conceptual de "Remote control". "Turn me on" é uma faixa de dupla leitura, com dois significados paralelos que estabelecem uma relação entre a excitação sexual e a utilização da tecnologia. ("Put your hand on the power / Why don't you turn me on").

Segue-se "TV is King", um tema que arranca espectacularmente nas teclas, dedica-se ao poder instrumental e manipulatório da televisão no seio da sociedade do espectáculo através do encantamento do telespectador que se apercebe do enfado da sua vida em comparação com aquelas que a televisão lhe revela. Fee Waybill soa-me a David Byrne e "TV is King" a Talking Heads, é elogio que deixo a todos os mencionados, no panteão dos meus preferidos em matéria musical.

O jogo duplo de significados de "Turn me on" é novamente explorado pelos The Tubes em "TV is King" já que a letra revela por um lado o desejo de uma vida mais excitante ("I wish I had the girl with the bouncy hair / We'd ride off in a brand new car / or fly a plane somewhere / like probably Jamaica") e por outro a rendição ao carácter fictício e mediático desse mesmo desejo ("I can't turn off my television / Don't really know why, television / I understand my television").


"Prime time" fala do uso do tempo - irrepetível - que nos é concedido e "I want it all now" parece uma canção escrita nesta segunda década do século XIX, com referências explícitas à solidão que teve na tecnologia um poderoso aliado ("What's on the other side of the wall / Seems like my world has gotten so small / Where are the friends who don't ever call / Is there an answer to these questions at all / When will they come and open the door / I can't hold out anymore").

"No way out" retoma a temática de "I want it all now" ("There is no way out  / I am stuck here behind the window / Tangled in the wires and burned by electricity / And there's no place left to go for me / And there's no way out for me") antes de um interlúdio instrumental que longe de funcionar como momento de relaxe introduz entropia no disco. "Getoverture" é um tema electrizante que abre a porta a "No mercy", a história de um ser isolado no seu próprio mundo ("... And back in my own world / Nobody bugs me").

O disco prossegue com "Only the strong survive", um tema que enfatiza o niilismo associado à cultura mediática que no final dos anos 90 começava a colocar a televisão no epicentro do processo de construção de opiniões sobre a realidade do mundo ("When you're always chasing rainbows / and you might not know which way the wind blows / You say your lucky day is comin' / Until that day you're just slummin' | So you wait and you wait but the signal don't change / Watching TV daily there is no sign / You read your horoscope / But ahh, it would appear there is no hope").

"Be mine tonight" surge como uma paródia amorosa com a utilização de uma estranha metáfora televisiva a abrir ("Well the very first time that I saw you there / you know I couldn't believe my eyes / I thought I was the winner of the Price is Right / and they let me keep every prize") que tem depois em "Love's a mystery" continuação à altura, numa altura da história do disco em que a realidade da realidade é abertamente questionada ("Real, almost real / I could feel the life flow into my veins / Done, now it's done / I have fallen for the final time I can't get up again").

"Remote control" termina com "Telecide", uma confissão da dependência televisiva ("Feeling so much thinner / I need a TV dinner / I'm mad as hell and I'm not going to take it anymore") neste mundo de estímulos aparentemente diversos que acabam por resultar numa efectiva padronização/normalização das vidas. A solidão, tema principal de "Remote control", acaba por se assumir como aspecto central da última faixa do disco ("TV suicide / TV suicide / What a lovely way to die / It's another case of telecide"). Confesso que esta faixa me fez lembrar a posterior "It's the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)", tema de 1987 incluído em "Document", o primeiro disco dos REM.

O disco, produzido por Todd Rundgren, é notável do princípio ao fim e deve ser compreendido como um todo coerente, não obstante ser possível admirá-lo peça a peça. É também incrivelmente actual, trinta e sete anos depois da sua edição.


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