A "solução" encontrada pelas grandes potencias da União Europeia (UE) e pela Turquia para a chamada "crise dos refugiados" é uma das mais vergonhosas provas do interminável cinismo da "Europa" (leia-se, a União Europeia). A "solução" foi uma escolha da UE entre várias possibilidades à sua mercê. A "Europa" escolheu descartar-se das pessoas, como se estas se tratassem de gado, e é essa escolha (a opção tomada, de entre várias possíveis) que define a barbárie da auto-denominada "civilização".
Depois de derramar todo o combustível que podia em cima da fogueira síria - com apoio diplomático e económico a uma "oposição" que nunca conseguiu verdadeiramente definir e identificar -, a UE negociou com a Turquia - principal aliado das forças que desde 2011 destroem por completo a Síria - um esquema de repartição de pessoas que as desumaniza. A troco de meio BPN, três mil milhões de euros, os burocratas de Bruxelas mantêm boa parte daqueles que fogem de guerras em larguíssima medida criadas e alimentadas por governos europeus fora das suas sacrossantas fronteiras.
As autoridades turcas, oportunistas, aproveitam para ficar bem numa fotografia em que poderão esconder as suas mãos tintas de sangue, prosseguindo pela calada o seu trabalho de desestabilização da região, o que inevitavelmente provocará mais e maiores migrações forçadas, consequência que na verdade os deixa numa posição negocial mais forte face à UE.
É por isso com profunda vergonha que volto a afirmar, tão alto quanto me é permitido, que a UE não fala nem actua em meu nome; que tenho vergonha deste negócio e que a Europa pela qual me bato não abandona pessoas cujas vidas ajudou activamente a destruir.
Melhor fariam os governos europeus se cumprissem o imperativo moral de acolher de forma digna aqueles que se viram forçados a abandonar as suas vidas em países rasgados de cima a baixo pelo ódio sectário, armado até aos dentes. Melhor fariam os burocratas de Bruxelas se colocassem a Turquia perante as suas imensas responsabilidades no que respeita à situação na Síria e no Iraque, ou perante os crimes cometidos sobre as populações curdas.
A realpolitik está na ordem do dia e os princípios não fazem parte do dicionário da UE. Não admira.
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