Depois da notícia ontem divulgada acerca da ligação da ex-ministra das finanças a uma instituição financeira estrangeira que beneficiou de negócios com o estado português durante o período em que a sua agora administradora tutelou as finanças públicas [1], hoje o tema é o banco Efisa - o de Miguel "vai estudar" Relvas [2] -, que foi privatizado (depois de devidamente "limpo" com dinheiros públicos) por um gestor público que é na verdade quadro da empresa que beneficiou do negócio [3]. O(s) tema(s) fará(farão) parte das conversas de café durante algumas horas até que outras prioridades - e o Sporting x Benfica é já amanhã... - se sobreponham ao essencial das nossas vidas. Até lá tanto os visados quanto aos seus patrões levarão a cabo o já costumeiro "controlo de danos", certos de que - tal como no passado - a tempestade não fará abanar o seu poder tentacular.
Importa notar que a invocação da legalidade de todos estes nebulosos processos não pode nem deve deixar tranquilo um povo gozado pelo regime plutocrático que após 1976 se foi estabelecendo no país, e que criou no seu seio uma finíssima minoria de super-ricos por oposição a uma vasta maioria para quem "crise" tem sido (desde sempre) a realidade quotidiana e estruturante das suas vidas. Aliás, a legalidade da imoralidade é apenas a prova de que o domínio político da câmara legislativa do país - a Assembleia da República - por parte de maiorias parlamentares vinculadas ao interesse da tal finíssima minoria é essencial para perpetuar as formas de exploração dos seus recursos que estão à vista de todos. São essas maiorias que desde 1976 garantem a aprovação de leis que estiveram e estão na origem de boa parte dos problemas nacionais.
Neste contexto espanta-me sinceramente a paciência dos pobres num país onde desde há muito é sabido que são precisos muitos depauperados (incluindo aqueles que trabalham para empobrecer [4]) para gerar um abastado. É que a fome de muitos paga os excedentes pornográficos daqueles que controlam os negócios do Estado, ou os negócios que o Estado patrocina. Um Estado que não "somos todos nós", e que é na verdade a expressão institucional do domínio de uns poucos sobre uma maioria anestesiada. E como é sabido quem está anestesiado... não estrabucha. Paga... e não bufa.
Notas:
[1] "Maria Luís Albuquerque contratada por empresa que negociou com o Banif", Público, 03.03.2016.
[2] "Miguel Relvas na lista de accionistas da empresa que comprou o Efisa", Público, 21.01.2016.
[3] "Gestor público vendeu Efisa ao futuro patrão", RTP, 04.03.2016.
[4] "A pobreza é uma armadilha mesmo para quem trabalha", Público, 03.03.2016.
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