17/02/2016

Liberdade, tecnologia, ética e consciência.


Bem sei que já escrevi por aí uma boa meia-dúzia de posts sobre o romance "Jurassic Park" ("Parque Jurássico", na tradução portuguesa), de Michael Crichton. O livro foi celebrizado através do filme que inspirou, realizado por Steven Spilberg, e é um dos meus favoritos. Em "Parque Jurássico", Crichton problematiza acerca da questão do desenvolvimento tecnológico e das suas barreiras técnicas e éticas. O contexto é o da genética e o enredo gira em torno de um parque zoológico criado numa ilha do Pacífico, ao largo da Costa Rita, no qual foram criados - a partir de moléculas incompletas de ADN - exemplares de dinossauros extintos desde o Cretácico.

Muitos pensarão que "Parque Jurássico" é apenas um filme de ficção-científica que se vê na companhia de pipocas e refrigerantes mas nem o filme pertence a esse campeonato, nem o romance que o inspira padece desse nível de superficialidade. Michael Crichton colocou em "Parque Jurássico", há um quarto de século atrás, questões que ainda hoje são mal compreendidas pela generalidade das pessoas comuns, de entre as quais destaco aquela relativa aos limites éticos que podem limitar aspectos específicos do desenvolvimento tecnológico.

Numa das semanas mais célebres do filme, Malcolm - um matemático especialista em sistemas complexos - discute com John Hammond - o dono e ideólogo do Parque - a dimensão filosófico e simultaneamente prática associada à ressurreição tecnologicamente assistida de seres seleccionados pela natureza para se extinguirem há 65 milhões de anos atrás. Neste debate é particularmente relevante a observação de Malcolm sobre o conflito entre o poder (ou seja, a capacidade para) e o dever, eticamente enquadrado: "Yeah, yeah, but your scientists were so preoccupied with whether or not they could that they didn't stop to think if they should". A questão aplica-se a muitas outras dimensões e contextos tecnológicos, no seio dos quais o poder não se encontra de forma alguma condicionado por uma objectiva e criteriosa avaliação do dever.

Obcecado por uma evolução tecnológica que o fascina, o Homem parece impedido de a colocar em perspectiva, sobretudo num momento em que novos desenvolvimentos - de hard ou software - podem valer milhares de milhões de dólares e euros de proveitos. Em regra, não é capaz de idealizar inovação e criatividade sem tecnologia digital envolvida. E isto num momento em que existe um recúo de uma parte da sociedade face à utilização massiva, compulsiva e desregrada de dispositivos tecnológicos móveis, como o smartphone e parentes.

Ludita selectivo, vivo em permanente conflito com a minha consciência e em frequente confronto com uma realidade que força - independentemente da vontade de cada um - a submissão ao primado tecnológico (digital). Incomoda-me a reprogramação que a tecnologia digital - sobretudo a dos megasistemas - impõe ao cérebro humano e à forma como este interpreta, actua e altera - por via da acção - a realidade. E vejo-me quase sempre rendido à contradição lógica gerada pela fricção dolorosa entre aquilo que faço e a forma como me comporto. Trata-se no fundo da mais despudorada e cínica forma de incoerência.

Neste contexto, somos livres?

Sem comentários: