24/02/2016

"O fair-play é uma treta"

É das coisas mais constrangedoras que me são dadas as observar: ouvir, ler e ver pessoas inteligentes e com elevados valores éticos em várias dimensões da sua vida sacrificarem princípios de honestidade intelectual quando o tema é "bola". A coisa foi gritante este fim-de-semana, com benfiquistas e portistas a negarem as evidências e sportinguistas a retomarem um discurso vitimizante quando não têm - pelo menos na presente temporada - razões substantivas de queixa relativamente a questões de arbitragem. De resto o desporto continua dominado por visões sectárias, que no futebol não são dano colateral mas antes cultura conscientemente promovida pelos seus principais protagonistas, adeptos incluídos.

O fair-play será para a generalidade dos protagonistas e observadores "uma treta" - Jorge Jesus dixit, quando era treinador do meu Belenenses... - embora a muitos fique bem enaltecê-lo quando o contexto é longínquo e não prejudica os interesses próprios do emblema do coração. Por cá, no calor permanente da refrega clubista, parece-me muito improvável que um jogador reconheça perante o árbitro que simulou a falta num penalti erradamente assinalado; se o fizesse iria pela certa parar à equipa B, com rótulo de imbecil e promessa de assassinato profissional forçado pelo clube (ou SAD) apoiado por uma maioria de adeptos irados.

Neste contexto é também legítimo perguntar se "desporto é saúde".
Parece-me que não.

1 comentário:

miguel costa disse...

A questão é mesmo perguntar se "futebol", nesta dimensão que referes e que é a global, quotidiana e mais praticada, é desporto... ou é política, essa politica que fazia para Marx a religião ser o ópio do povo, um povo que adormece frente à novela, exalta-se e ameaça de morte o vizinho por um penalti, e encolhe os ombros e sorri quando o patrão diz que é preciso colaborar porque isto está mau para todos.