Nas suas obras, Chaplin apresentava ao seu público - aos públicos posteriores, atravessando gerações - a perspectiva da diferença como elemento enriquecedor de uma sociedade plural, democrática, aberta e respeitadora da liberdade e das diferentes formas de viver. Nos filmes de Chaplin o vagabundo aparece sempre não como um ser desprovido de pensamento, mas como alguém cujo pensamento foge à norma, ao padrão e, por isso mesmo, à compreensão daqueles com quem partilha espaço, tempo e circunstâncias. Os vagabundos de Chaplin não racionalizam a emoção nem emocionam a razão. São racionalidade emotiva, ou emoção racional, num mundo em que a produção humana-robotizada - em sentido restrito e lato - foi elevada ao estatuto de sacramento económico no altar do "crescimento" económico.
A questão impõe-se e importa não a varrer para debaixo do tapete: que equilíbrio existe nas vidas anti-vadias de clones normalizados em que nos vamos tornando?
O tempo é de individualismo importado e incentivado por doses massivas de influência norte-americana nos mil e um contextos da vida actual no velho continente. Creio que esse individualismo gera em cada um de nós uma percepção ilusória de individualidade - de diferença face ao outro (aos outros) - que na verdade anulamos diariamente sempre que nos conformamos a fazer fila "indiana" para passar o cartão que abrirá as portas de acesso ao "transporte público". E se um "vadio" tenta furar o sistema, juntando o seu corpo ao nosso quando as portas abrem, protestamos e apontamos a sua forma de vida como tudo aquilo que está mal no viver colectivo da nossa comunidade.
Normalizados. Estamos normalizados.
Cegos. Estamos cegos. "Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem", como escreveu Saramago no seu muito actual "Ensaio sobre a Cegueira".
Vida de vagabundo, pensamento diferente. Basta ver os filmes de Chaplin para o perceber de forma absolutamente cristalina.
Notas:
[1] "Pensamentos", Tribo da Periferia [ouvir].
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