11/12/2015

O sr. Ulme e eu.

A minha memória é um lugar estranho. Como a remexo muito tende a desarrumar-se o que me cria não raras vezes problemas no dia-a-dia. Bem sei que a memória não é um registo de acontecimentos, uma cronologia de factos. Pelo contrário, trata-se de um registo de experiências, de sentimentos e de percepções que podem ser interpretados pelo próprio de forma diversa ao longo do tempo. Nós mudamos, e a nossa memória muda connosco.

Tenho algumas memórias de infância, embora não me lembre de coisas que a maior parte das pessoas recorda com facilidade. Por exemplo: não me lembro dos nomes dos meus amigos da escola primária (com meia-dúzia de excepções) e recordo mal episódios supostamente marcantes. Por outro lado guardo com total clareza a minha visão de alguns acontecimentos ou experiências, sociais ou familiares (sobretudo estes últimos). Assim, é com base em poucas mas muito marcantes memórias que estruturo a minha identidade.


Uma das mais nítidas memórias que tenho da minha meninice é a de um homem sem pernas que no meio de uma multidão, durante as Festas de Nossa Senhora da Rocha, em Carnaxide, caminhava sobre as mãos e pediu esmola. Lembro-me de passar por ele e de parar, lembro-me do seu rosto e de ter também ele parado a olhar-me nos olhos. Acho que o rosto daquele homem não se apagará da minha memória para o resto dos meus dias.

De resto tenho de confessar que são precisamente memórias sofridas (ou de sofrimento, próprio ou alheio) aquelas que com maior nitidez guardo em mim. Memórias de acontecimentos, de filmes que vi ("O homem elefante" é história que recordo dia-sim-dia-sim), de músicas que ouvi, notícias de li, fotografias com que me cruzei. Custa-me imenso reconhecê-lo mas a verdade é esta: recordo sem esforço uma boa dezena e meia de fotografias de guerras recentes que por acaso me apareceram à frente, embora não tenha memória de mais do que duas ou três imagens felizes relativas ao mesmo período.

Que esta forma de relacionamento com a vida diz muito acerca de mim é coisa que não ignoro. E talvez por isso me tenha revisto tanto no Sr. Ulme do romance "Flores", de Afonso Cruz. Ulme lia jornais e sofria desmedidamente com as dores do mundo, como se essa observação vivida da desgraça alheia pudesse aliviar os outros dos seus males. O problema de Ulme, como em parte o meu, dizia respeito à memória e à pacificação do reboliço que a mesma lhe provocava, permanentemente.

1 comentário:

Jose Maria Oliveira disse...

Seleccionei-o como prenda de aniversário que os meus sogros me ofereceram. Ainda não comecei, mas está na calha assim que terminar o que estou lendo agora. Estou em pulgas!
Quanto à matéria concreta de que fala o teu post, recomendo-te o livro "Quando as pessoas boas fazem coisas más" da Debbie Ford. É duro de ler, muito duro, mas talvez traga alguma clarividência a essa tua "característica". Eu cada vez mais vou tendo memórias muito felizes no meio dessa amálgama das mais sofridas. De alguma forma vou acreditando que temos uma grande dose de escolha no que lembramos do que nos vai ficando dentro. Abraço.