16/11/2015

França, o Facebook e a infantilização do debate político


Os acontecimentos de Paris desencadearam reacções naturais e compreensíveis que, num mundo tomado por formas de individualismo sectário, se expressaram sobretudo através das redes sociais.

As redes sociais são, sabemo-lo bem, espaços cuja estrutura, o ambiente e a lógica muito convidam ao conflito. Elas maximizam a agressividade natural de muitos de nós. São também “lugares” não pensados para debates profundos sobre temas que ultrapassem a superficialidade do penalty duvidoso. Ninguém lê 4000 caracteres publicados num comentário a uma notícia, ou ao “post” de um amigo, mesmo quando não há outra forma de explicar de forma clara uma opinião sem recurso a 4000 caracteres.

Por isso, acompanhar o que se foi escrevendo nas redes sociais sobre Paris desde a passada 6ª feira permitiu-me reforçar a ideia de que as redes sociais são muito mais “espaços” de afirmação de posições do que de debate de opiniões. Aliás, o clima emocional gerado, associado à própria lógica de gestão de listas de “amigos” em redes como o Facebook, provocou uma onda de saneamentos – e de convites à “desamigação” – que em circunstâncias habituais não ocorre.

Há coisa de um ano atrás descobri na rede uma ex-colega de natação, emigrada num país estrangeiro. Essa minha colega publicou certo dia um curto post em defesa de um movimento de inspiração xenófoba existente no país onde vive. Violentado pelo que li não hesitei em “remover” a sua “amizade” da minha lista de contactos da rede. Foi fácil e indolor, e pode ser que um ano mais tarde a própria ainda não se tenha apercebido de que o fiz… A questão é: poderia eu ter optado por iniciar um debate “facebookiano” em torno das reivindicações – na minha perspectiva inaceitáveis – do movimento Peguida alemão?

A minha tese é que não, não é possível utilizar o facebook para debater seriamente temas complexos, que obriguem à aceitação de perspectivas contrárias com um mínimo de abertura de espírito. A rede convida ao extremar de posições, a distância física face ao outro facilita a agressão verbal e a flexibilização do conceito de “amizade” permite a pessoas adultas afirmarem perante outras do mesmo grupo etário um infantil (embora digital) “já não sou teu amigo”. Como eu fiz, aliás.

Ora, se o Facebook não permite debater com seriedade a actualidade, e se por razões de falta de segurança também não garante a privacidade que a publicação de informação pessoal delicada (incluído por exemplo fotografias de rosto de crianças) exige, pergunto-me para que servirá.

Estive cerca de 6 meses ausente da rede e a ela regressei por razões – vantagens – que objectivamente identifiquei. Creio que a rede social é uma óptima fonte de informação desde que seja utilizada com critério e cepticismo “qb”. Por isso continuarei a utilizá-la – provavelmente de forma cada vez mais moderada e silenciosa –, até porque nela encontro um campo privilegiado para desenvolver em mim a tolerância que vejo rarear no mundo.

3 comentários:

miguel costa disse...

Essa ideia do facebook como exercício terapeutico fez-me sorrir. E sim a ideia do debate com um mínimo de profundidade é uma parede de betão que o teclado não tem poder para quebrar. Creio a ser terapia, o facebook seria muito mais uma espécie de pilula da autoestima, em que pela exlusão daqueles que nos ofendem no seu pensamento (ou falta dele) deixam entre nós e o mundo uma muralha de pensamento único que nos ilumina o umbigo das certezas feitas e da confirmação da nossa divindade. Nesse sentido creio que o facebook é uma ratoeira em que continuamos a cair, uma adicção em que o os egozinhos se alimentam, pois "lá fora" faz frio e a etiqueta da impessoalidade, da cobardia e do conformismo não permitem que sejamos humanos de carne e osso.

Bruno disse...

Uma situação como a de Paris, é uma oportunidade a que temos o dever social de agir para alertar relativamente a situações à qual a maioria das pessoas antes ignorava. Tal como a tragédia de há tempos na Madeira, de cheias e deslizamentos de terra, é a oportunidade para discutir urbanismo... Nunca como agora leio tantas pessoas contra os bombardamentos da NATO na Síria e outros locais.

É nosso dever entrar no conflito de opiniões. Ajuda ao nosso refinamento do pensamento, seja com quem pensa de forma semelhante a nós, quer com quem não o faz, e, às vezes, é preciso fazermos o que fiz há dias: um comentário brutal e demolidor a quem mereceu (um ex-colega). Isto de comentar na plataforma tem um efeito, uma responsabilidade social, e achei que devia ter intervindo. Passo seguinte: não perder muito mais tempo com o assunto.

Já usamos o fb há muitos anos. Reconhecemos melhor do que nunca reconhecer a importância e o tempo a darmos à plataforma.

Rui Silva disse...

Claro, Bruno, não é tempo de calar. O que me parece é que combater em terreno armadilhado é má política, má estratégia. E eu creio que a plataforma não está pensada para que nela existam debates elevados. Só isso.