Que "o exame" e "as notas" sejam a preocupação fundamental de pais que naturalmente querem - pelo menos em tese e em intenção original - o melhor para os seus filhos é coisa que não pode deixar de causar perplexidade a quem observa friamente a coisa a partir de uma posição mais ou menos distanciada.
Existem todavia atenuantes, de entre as quais se destaca a realidade de um tempo em que a aparência tem valor nunca inferior à essência. Exames e notas são a aparência de educação quando na verdade representam vestígios mais ou menos camuflados de uma lógica militarizada ainda reinante num sistema de instrução murado e, actualmente, vocacionado para preparar mão-de-obra para a produção de bens e serviços e, por arrasto, para "o crescimento do país". A escola olha a criança, o adolescente e o adulto de forma absolutamente instrumental, quando na verdade o instrumento deveria ser a própria escola.
Não admira que encarregados de educação genuinamente preocupados com os filhos interpretem o problema da falta do professor a partir de um prisma que coloca no topo das consequências negativas da situação o problema da preparação dos exames. É que estes são desde há muito o alfa e o ómega da relação entre alunos e professores, comunidades e escola. A hierarquia de valores não se inverteu e, de certa forma, tornou-se ainda mais rígida: as aprendizagens servem o propósito de gerar boas notas, progressão de nível, resultados no exame e, no fim da linha, certificação académica-profissional. E por isso elas são muito mais um meio do que um objectivo. Que pais de miúdos sem professores tenham como preocupação primeira o exame e a desvantagem dos seus face a outros é bem a prova que o paradigma Crato, anterior ao próprio ministro homónimo, fez "escola" - à custa da Escola - em Portugal.
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2 comentários:
Não apenas se converte, ou reforça a escola enquanto fábrica de mão de obra, cada vez mais segregadora entre candidatos a subditos e dirigentes do sistema capitalista, como, em simultâneo, a ânsia cilindradora das notas e da cultura dos exames cria um mercado de consumo de produtos "de excelencia" (ou nem tanto) no setor privado.
Trata-se de uma dupla perversão do Sistema Educativo, das suas funções - pedagógicas e sociais - que à discriminação soma discriminação e à miséria social soma miséria cultural.
Crato assume para si e para o sistema educativo o exemplo por excelencia desta destruição, encomendada pela oligarquia europeia que depois de ter destruido as componentes produtivas da economia nacional, anseia pela criação de um "paraiso" laboral liberal, alimetado por gente desperada e desesprançada, conformada com as inevitabilidades ditadas pelo patrão.
Aplaudo e partilho. Grande abraço.
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