27/10/2015

Frankenstein 2.0

A progressiva mediação tecnológica na relação entre o Homem e o mundo é tema de reduzida expressão no debate público, que parece apostado em relativizar as suas consequências visivelmente avassaladoras que já se fazem sentir em camadas da população cada vez mais alargadas das sociedades mais desenvolvidas.

As comunidades humanas ainda atravessam a sua adolescência tecnológica e esta prolonga-se indefinidamente, por via do contínuo desenvolvimento de meios, conteúdos e opções aparentemente mais avançados. A obsolescência tecnológica, programada ou não, dá-se a um ritmo muito superior à capacidade humana para integrar de forma racional a tecnologia no seu viver quotidiano.

Sem tempo nem espaço para atingir a sua própria maturidade na relação com um determinado contexto tecnológico, porque este lhes vai fugindo continuamente - liderando um processo que muitos consideram de "evolução" - às pessoas comuns tem restado (não raras vezes por opção própria) uma postura reactiva e acrítica.

A metáfora criada por Mary Shelley no seu bem conhecido "Frankenstein" tornou-se de súbito bem mais complexa, com o criador a ser subtilmente subjugado pela criação que ainda julga controlar. O mundo de idiotas a que se referiu Einstein é hoje uma realidade em consolidação acelerada.

Creio que se torna cada vez mais importante que cada um faça sobre a sua relação com a tecnologia - sobretudo a digital - uma reflexão minimamente honesta e descomplexada. A mediação com o mundo que a tecnologia nos proporciona enriquece-nos ou alimenta o imbecil que todos trazemos em potencia dentro de nós? Há existência fora da "conexão"? E se sim, que importância tem esse existir não partilhado? A percepção de que somos ouvidos e lidos por muitos tem correspondência com a realidade? E independentemente disso, a mera possibilidade daquilo que fazemos e dizemos ser lido, interpretado e julgado por outros tem impacto da genuinidade do nosso comportamento? Se sim, essas contínuas alterações poderão ou não cristalizar-se, passando a constituir uma nova forma de ser?

As respostas poderão ser duras mas sem elas continuaremos esta fuga desvairada face às consequências da fixação tecnológica em que vivemos. E estas não deixarão de se manifestar de forma mais ou menos violenta, independentemente da nossa opção (colectiva) de as varrer para debaixo do tapete.


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