13/09/2016

Do significado das palavras

Resgate.

Resgate é a palavra do momento. Centeno disse-a sem a dizer, afirmam alguns. Não se pode dizer o que não se disse, respondem outros. Pelo meio, aqueles que afirmam lamentar que a palavra tenha voltado à liça dizem-na vezes sem conta, à espera que a profecia se concretize, e que seja novamente tempo de ir ao pote. Resgate, resgatem, resgate.

Oiço resgate e penso em rapto. E no entanto, se resultado houve do "resgate" de 2011 foi a perpetuação e o rapto do povo português pela burocracia de Bruxelas. Aquela que, mais esperta do que Barroso, não foi de lá para o Goldman Sachs, mas que pelo contrário saiu do Goldman Sachs para se ir meter lá. Para ir resgatar países, claro está. Uns altruístas.

Por outro lado, de acordo com o dicionário online Priberam, "resgatar" significa "remir a troca de dinheiro ou presentes". O Estado Português terá sido então "libertado" (de quem?) a troco de quantias de dinheiro que a maior parte de nós não consegue visualizar, mas que se habituou a ouvir e dizer como se fossem trocos. A nova unidade monetária mediática é o milhar de milhão.

O rapto está consumado. E os raptores não são só os burocratas que a banca colocou em lugares chave, nem os burocratas que ambicionam ir para os bancos que não os contrataram quando eram "apenas" políticos. Também não são só os jornais que, sem leitores pagantes, sobrevivem de cliques e patrocínios que transformam "perdócios" [*] em investimentos que, independentemente do custo, representam sempre lucro. Os raptores também somos nós, povo, simultaneamente raptado por um medo que explica - pelo menos um pouco - este estúpido síndrome de Estocolmo em que nos deixámos cair. Até quando?


[*] "perdócio" (negócio deficitário, com perda de dinheiro) foi como chamou Belmiro de Azevedo ao seu jornal, o Público.

"... Alone In The Wilderness"

[galeria selvagem de Danila Tkachenko]

09/09/2016

Sobre o "Manifesto do Unabomber", intitulado "O futuro da sociedade industrial" [parte 2]

A releitura de "O futuro da sociedade industrial", documento mais conhecido como o "Manifesto do Unabomber", constituiu para mim uma profunda desilusão. Não sendo adepto do tipo de acção levada a cabo por Theodore Kaczynski julgava por outro lado poder vir a encontrar no seu manifesto uma abordagem científica-filosófica profunda sobre o tema da tecnologia e do seu impacto na vida dos Homens e das comunidades humanas. Vários anos depois da primeira leitura do documento encontrei no "Manifesto" formulações generalistas, generalizações desprovidas de sentido, conclusões empíricas sem fundamentação e, por várias vezes, a confissão por parte do próprio autor de que tal ou tal ideia são na verdade simplificações grosseiras de uma realidade bem mais complexa do que a visão esquemática que "O futuro da sociedade industrial" acaba por utilizar.

Em boa verdade "O futuro da sociedade industrial" não é um documento sobre tecnologia. A questão fundamental, que o autor efectivamente relaciona de forma directa à tecnologia e à civilização tecnológica-industrial, é a da Liberdade individual e a ligação desta com o chamado "processo de aquisição de poder".

No seu manifesto, Kaczynski apresenta-nos a sua visão de uma liberdade amputada das suas mais relevantes e fundamentais características, com destaque para a autonomia, profundamente afectada pela tecnologia e por uma civilização industrial que transforma seres humanos em autómatos "socializados" (domesticados e rendidos às suas convenções essenciais). O autor refere, nalguns casos com desconcertante acerto e perspicácia, a forma como a tecnologia agride a relação do homem com a natureza, com os espaços, com os outros seres humanos e, principalmente, consigo mesmo.

Para Kaczynskia tecnologia não é neutra nem reformável. Em "O futuro da sociedade industrial" é aliás abordado o tema das reformas e as dificuldades - não raras vezes irresolúveis - ligadas ao gradualismo reformista. Este será, temo bem, a parte mais interessante do livro.

De resto não creio que o autor apresente argumentos originais nem de peso suficiente para justificar a sua ânsia pela publicação do seu "Manifesto". A obra é relevante no âmbito da história de uma certa linhagem particular de ludismo. Mas não fosse dar-se o caso de ter sido o seu autor um dos mais procurados assassinos das últimas duas décadas do século XX, nos Estados Unidos da América, "O futuro da sociedade industrial" não passaria de mais um longo artigo escrito por um outro universitário radicalizado, a passar ao lado da esmagadora maioria dos seres humanos à superfície do planeta.

The Veil

Divulgada ontem, e hoje disponível nas principais plataformas de streaming, The Veil é a canção criada por Peter Gabriel para o filme "Snowden", de Oliver Stone [trailer].

08/09/2016

Truman Show, ou o conforto cognitivo que se alapou à "civilização" que temos.

É curioso que, sendo eu profundamente interessado por todo o fundo psicológico e filosófico associado ao "Truman Show", nunca lhe tenha dedicado neste blogue a atenção devida. Como o tempo nesta fase é um bem escasso no meu dia-a-dia, aproveito este belíssimo post do Daniel Carrapa (no muito aconselhado "A barriga de um arquitecto"), cuja ligação faz parte da lista de blogues e afins disponível nesta tasca) para aconselhar um filme e uma reflexão que fez luz sobre uma realidade pouco clara no momento da sua estreia. "Truman Show" foi uma candeia demasiado à frente, num tempo em que dois, três anos parecem uma eternidade.

Aos mais interessados deixo uma dica adicional: a leitura do conto "What's It Like Out There?", de Edmond Hamilton, publicado na colectânea "Mensagens do futuro", organizada por Isaac Asimov, e publicada em português no âmbito da colecção Argonauta (n.º320).

07/09/2016

Propriedade intelectual

Com Pierre-Joseph Proudhon terei muito pouco em comum. Em todo o caso creio que é sua a célebre expressão "a propriedade é um roubo", com a qual estou genericamente de acordo, pese embora considere muito avisadas, justas e certeiras as palavra que a ela dedicou Karl Marx, e que se resumem mais ou menos na seguinte observação: "o 'roubo', enquanto violenta transgressão da propriedade, pressupõe a existência da própria propriedade", legitimando-a.

Seja como for recordei-me das palavras de Proudhon quando pesquisando acerca do disco "Single factor", dos Camel, encontrei numa entrevista de 2013 a seguinte resposta de Andy Latimer a uma questão que se lhe foi colocada sobre a possibilidade de Steven Wilson poder vir a trabalhar sobre gravações antigas dos clássicos dos Camel:

"Yes! I don’t see why not. He’s very good. He did the King Crimson stuff and he does his own stuff too. He’s very talented so.. yeah, I wouldn’t mind. I think the problem is that I don’t own almost all the classic albums, then he has to go to Universal and make sure that they would say “yes” to do it. The older stuff has some problems. I don’t mind if he wants to do it. I didn’t know it!" 

Quer isto dizer que Latimer não se opõe mas que na verdade a propriedade dos clássicos dos Camel não é sua (nem dos restantes membros da banda) mas antes da Universal, um gigante da "indústria" musical que agrega em si várias empresas do ramo, incluindo dezenas "labels" (editoras) dedicadas aos mais diversos géneros. O autor separa-se assim da obra que criou, com base em contratos há muito assinados, e que tendo metido pão na mesa se revelam a prazo ruinosos para a própria obra, cuja divulgação e comercialização ficam totalmente na dependência da corporação que a detém.

A propriedade intelectual - com outras formas de propriedade, ou seja, de posse sobre determinado bem, físico ou intelectual - revela-se assim um engano, um logro, na medida em que gerando em muitos a ilusão de posse acaba por se revelar uma realidade política, económica, social, jurídica e cultural que serve apenas às grandes corporações cuja verdadeira vocação - a acumulação, por vias diversas - pouco ou nada se relaciona com criação.


Excerto de "Snow Goose" ao vivo, Camel.

05/09/2016

Os índios da Pradaria

Os Lakota, também conhecidos como índios da pradaria, são um povo indígena da América do Norte, cujas terras originais se estendiam pelos actuais estados norte-americanos do Dacota do Sul e do Norte. Formados por sete tribos vizinhas, entre as quais se encontram os Sioux, os Lakota imigraram para o Norte, oriundos do baixo Mississipi, e ali se fixaram vivendo da agricultura e da caça do búfalo, actividade iniciada após a introdução do cavalo na vida das comunidades, no século XVIII. É em parte da vida dos Lakota que falam grandes produções de Hollywood, como "Dances with wolves" ("Danças com lobos"), filme realizado a partir do romance homónimo, de Michael Blake.


É sabido que as tribos Lakota resistiram ao processo de violenta invasão e colonização branca dos seus territórios, e que essa resistências lhes valeu uma sucessão de massacres, guerras e outros actos de violência brutal por parte do exército norte-americano, que no final do século XIX dizimou populações inteiras de búfalos, de forma a vergar os Lakota, obrigando-os a aceitar a vida em reservas e a dependência de rações alimentares fornecidas pelo governo federal.

Em 1890 dá-se o tristemente célebre massacre de Wounded Knee, na reserva de Pine Ridge (Dacota do Sul), no qual foram mortos centenas de índios, incluindo mulheres e crianças. Depois de várias guerras, traições, promessas quebradas e imposição da fome e do sangue, as autoridades federais obtiveram por fim domínio sobre a Nação Lakota, que em todo o caso é coisa diferente de se dizer que os Lakota foram submetidos à vontade dos seus colonizadores.

Insubmissão em Pine Ridge

A memória de Wounded Knee encontra-se bem viva no seio dos Lakota, e ao longo do século XX muitos foram os incidentes que, com maior ou menor gravidade, maior ou menor visibilidade, mostraram aos norte-americanos e ao mundo que a Nação Lakota se encontra bem longe da domesticação desejada pelo imperialismo.

No início dos anos 70 é criado o American Indian Movement (AIM), assistindo-se a um reforço da luta dos ameríndios Lakota contra as imposições federais. As tensões acumuladas tiveram grave desfecho em Junho de 1975, quando um tiroteio ocorrido na reserva resultou na morte de dois agentes federais e um activista do AIM. Os agentes federais responsáveis pela morte do activista ameríndio foram absolvidos, mas Leonard Peltier, o bem conhecido activista acusado pela morte dos agentes federais caídos, foi condenado a duas penas de prisão perpétua, encontrando-se actualmente na penitenciária federal Coleman, na Florida.

Petróleo na pradaria

O Dakota Access Pipeline Project é um projecto em concretização, que visa construir um enorme "pipeline" para transportar petróleo ao longo de mais de 1.000 quilómetros entre o Dacota do Norte e o Illinois. O tubo atravessa vastas áreas naturais, que incluem territórios que os tratados reservam à Nação Lakota, colocando em risco sítios arqueológicos considerados sagrados pelos Lakota, reservas e cursos de água, terras que as tribos ameríndias vêem como a raiz da sua cultura e identidade.

Os Lakota afirmam, e as evidências parecem confirmar os seus argumentos, que as rupturas de pipelines no Dacota do Norte têm sido frequentes, contaminando as suas terras e dizimando a vida que nelas procura encontrar a tranquilidade aniquilada noutras paragens.

A luta dos Lakota contra o Dakota Access Pipeline tem sido intensa, violenta e olimpicamente ignorada pela imprensa norte-americana e internacional. É precisamente por isso que deste espaço lanço aos índios da pradaria o meu grito de solidariedade e apoio à defesa da sua cultura, das suas terras, memória, identidade e forma de vida. Porque a luta dos Lakota pode não fazer parte dos espaços de entretenimento-informativo a que chamamos "telejornais" (e afins), mas não pode deixar de receber, nos espaços de comunicação livres dos "critérios editoriais" do sistema, o apoio e a divulgação merecida.